Nº 3| Período: Junho-2010 |
Editor: Alexandra Campos | Director: Rogério Gomes |
MEMÓRIA DESCRITIVA
A presente memória refere-se à intervenção proposta para uma área da Quinta das Conchas. Esta Quinta, localizada no Lumiar, está decomposta, para efeitos de projecto, em quatro zonas distintas: a Nave Central (montante e jusante), a Alameda da Água, o grande relvado e a mata.
Com o surgir da urbanização do Alto do Lumiar e das movimentações de pessoas que lhe está associada, verifica-se a necessidade de adequar a quinta às novas realidades, dotando-a de maiores superfícies pavimentadas, de percursos claramente definidos e também de algumas estruturas de apoio – um edifício-portaria, que receba, informe e canalize as pessoas, um restaurante/esplanada, um centro de interpretação ambiental que acolha a gestão do parque assim como das actividades a desenvolver.
Localizada a Este da Quinta, a Nave Central (a montante) é ensombrada por frondosas árvores e caracterizada por algumas oscilações no declive que se traduzem numa descoberta gradual do espaço, sendo aqui que quase todo o equipamento lúdico deverá estar concentrado.
O relevo será suavizado nalguns pontos, de modo a poder implantar os caminhos mas, de um modo geral, pretende-se manter o mais possível do perfil da Quinta existente.
A necessidade de ligar a Alameda da Mata à rua, o facto do antigo acesso à Musgueira estar actualmente desnivelado em vários metros e a pré-existência de 10 palmeiras a uma cota inferior, determinam a construção de uma escadaria para o exterior e de diversos muros sucessivos que se pretende quebrem a diferença de nível existente.
Para além disto, foi desenvolvida uma fonte, que encosta ao muro exterior da Quinta no ponto mais desfavorável em termos de cota e que funciona como ponto de partida para um grande sistema de circulação de água.
Junto à fonte propõe-se a criação de uma plataforma em massame de betão com padrões em cubos de granito, que estabeleça uma relação entre fonte e a entrada Este da Quinta, enquanto simultaneamente goza de uma vista privilegiada sobre a Nave Central.
A Alameda da Mata é interrompida pela Praça Central, o núcleo agregador de quase todos os percursos existentes e que encosta a dois tanques e uma mina de água da Quinta original e que deverão ser mantidos.
A Praça Central permite o acesso às praças multiusos, áreas pavimentadas de grandes dimensões e que serão apetrechadas de forma a poder receber múltiplas actividades, incluindo mesmo uma superfície desnivelada em cerca de um metro, podendo funcionar como um pequeno palco. As árvores existentes deverão ser mantidas e integradas de modo a que as suas caldeiras constituam parte do desenho de pavimento proposto.
Para além destas subdivisões, poder-se-á ainda referir a presença de uma zona de recreio mais activo, localizada na fachada Norte da Quinta e que abrange um leque variado de idades dos utilizadores. Assim, os brinquedos para os utilizadores mais jovens e/ou com mobilidade reduzida estão localizados mais perto do restaurante-esplanada, onde os pais poderão ficar a supervisionar. Esta zona deverá ser revestida a borracha sintéctica e vedada, para poder oferecer maiores condições de segurança aos utilizadores.
Com o afastamento em relação à esplanada surgem estruturas como cestos de basquete e uma teia de corda para escalar ou, como o trilho das bicicletas que, como o nome sugere, poderá ser utilizado para passeios de bicicleta entre os mais jovens.
Por último e, dado o afastamento considerável à zona de estadia já citada, criou-se um novo ponto de descanso, debaixo da pérgola, que deverá apoiar diversos escorregas encaixados no relevo e também com acesso a utilizadores de mobilidade reduzida.
Toda a Quinta deverá estar equipada com bancos, alinhados ao longo dos caminhos, criando múltiplas opções de estadia com uma distribuição regular.
Os pavimentos serão essencialmente em betão ou madeira, limitados por perfis de metal ou cubos de granito no primeiro caso e, por perfis metálicos no segundo caso. O betão deverá ser poroso sempre que possível, executando-se massame armado com betão de inertes nas situações em que o desenho de pavimento o exija.
As plantações são efectuadas apenas para marcar determinados eixos (caso das árvores plantadas) ou para seleccionar vistas (caso dos arbustos no trilho das bicicletas), dado existirem suficientes exemplares válidos na Quinta que se deverão manter.
A água é uma constante, iniciando-se na fonte e estendendo-se em várias ramificações até terminar junto ao lago do grande relvado.
A Arq. Paisagista A Arq. Paisagista
Teresa Cordeiro Sandra Somsen
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Memória Descritiva:
1. Designação e localização da obra
Localizada na freguesia do Lumiar, a Quinta das Conchas remonta ao séc.XVI como um espaço predominantemente agrícola da então periferia da cidade (termo de Lisboa). É constituída por uma zona mais acidentada, de mata, e por uma zona de clareira, nave central e confina com a Quinta dos Lilases. A sua requalificação/ reconversão em parque urbano foi iniciada com a obra da Nave Central, estando a decorrer presentemente obra nas restantes zonas.
2. Programa da obra
· Redefinir os limites, sujeitos a cedências, cortes e acrescentos em relação ao perímetro original da Quinta, pela aplicação do Plano do Alto do Lumiar;
· Reafirmar os sistemas de composição da quinta: o sistema de percursos, da circulação hidráulica e da vegetação (zonas de mata, orlas e clareira), promovendo as funções ecológicas e sociais;
· dotar o espaço de capacidade de carga e equipamento para receber os milhares de utilizadores previstos (considerando os cerca de 150 mil fogos recém-criados na zona), de todas as faixas etárias;
· criar infraestruturas de apoio à utilização.
3. Objectivos
· Executar um muro nos novos limites da Quinta, que vencesse os desníveis criados (muito pronunciados nalguns pontos) e condicionasse a utilização do espaço a um horário estabelecido mas, também, que incluísse gradeamento para permitir a percepção do espaço do exterior e aumentar a sensação de segurança dos utentes;
· Dotar o espaço de uma rede de caminhos e praças, múltiplos locais de estadia, equipamentos de recreio infantil e juvenil, um palco para a realização de pequenos espectáculos, bem como edifícios de apoio (espaço de informação municipal, restaurante e bar);
· Equipar a Quinta com mobiliário urbano actual, incluindo candeeiros, papeleiras e sinalética e, equipamento infantil diversificado, para abranger todas as faixas etárias;
· Pavimentação em betão, nos caminhos principais, garantindo a acessibilidade pedonal a utilizadores de mobilidade reduzida e a bicicletas mas também a veículos de manutenção que regularmente terão de percorrer a Quinta para podas de árvores, limpezas, tratamentos fitossanitários, etc. Nos caminhos secundários, com menor carga, recorre-se a ripado de madeira, contribuindo para a consistência e harmonia de todo o espaço central;
· Preservação dos vários elementos de água existentes, sete tanques, um poço artesiano coberto e uma nascente de água sob forma de mina, relacionando-os num sistema único que promove a recolha, armazenamento e reutilização da água proveniente quer da drenagem do terreno quer da chuva;
· Impermeabilização do grande lago com tela até ao nível médio previsto da sua capacidade de armazenamento (para manter um mínimo de volume de água ao longo de todo o ano) ;
· Generalizar o recurso a grandes superfícies relvadas para responder à capacidade de carga exigida para a Nave Central (zona de concentração fundamental de todo o recreio activo da Quinta);
· Colocação da água tratada da EPAL directamente no preenchimento do lago (quando necessário) e utilização da água do lago para alimentar o sistema de rega. Esta opção, em alternativa à utilização directa da água de rede para a rega, permite uma maior renovação das águas dos lagos, a utilização de água sem cloro na rega e com cloro no armazenamento do lago, controlar a pressão na rede de rega (que é superior à habitualmente fornecida pela EPAL) para possibilitar uma maior eficiência e, finalmente, poupar água.
4. Dados acessórios
Início do Projecto: 01/1999 Conclusão do projecto: 04/2001
Início da obra: 03/2004 Inauguração do espaço: 07/2005
Área da intervenção: 96.000 m2 Valor da obra: 4.262.470 €
5. Relevância da obra / potencialidades e constrangimentos
Nesta obra podem ser realçados os seguintes factores:
· Grande participação da comunidade na definição/ discussão ao longo das várias fases do processo, obrigando à resolução de diversos conflitos que envolveram manifestações, cortes de estrada e divergências existentes entre a opinião dos diversos intervenientes quanto ao futuro da Quinta (elaboração ocasional de diversas soluções para a mesma área projectual por forma a reunir o consenso público na intervenção;
· restrições financeiras, dado o limite negociado com a SGAL relativamente às contrapartidas para a Quinta;
· negociação com propostas sucessivas (ao longo de 3 anos) para rebater a intenção expressa no PUAL de atravessar a Quinta por várias vias de circulação, que pretendiam ligar a nova urbanização com o restante tecido de Lisboa mas que retalhariam a Quinta em três espaços verdes isolados;
· respeito pelo material vegetal notável que a Quinta inclui;
· implantação de uma grande quantidade de equipamento (permitindo usos complementares diversificados);
· a criação de um espaço verde de grande dimensão, equipado, nesta zona da cidade, que funciona como pólo de atracção não só da população residente mas também de outras zonas de Lisboa e até exterior a ela.
Memória Descritiva
A Quinta dos Lilazes, situada no Lumiar, foi construída no século XIX, através da compra e junção da Quinta das Flores e terrenos da Quinta das Conchas, espaços de função predominantemente agrícola da então periferia da cidade (termo de Lisboa). Instalada em terrenos de água abundante, a sua estrutura provém da função agrícola, com o sistema hidráulico e de caminhos organizando o espaço e originando formas de recreio associadas.
A Quinta dos Lilazes e a sua vizinha Quinta das Conchas, tal como hoje as conhecemos, são espaços patrimoniais envolvidos numa malha urbana cada vez mais densa e compacta que as envolve mas salienta a importância de espaços como estes, que têm resistido e mantido a sua essência. Durante os primeiros anos do sec. XX as quintas tiveram o mesmo proprietário, Francisco Mantero, e foram sujeitas a intervenções que as aproximaram da estrutura que hoje lhes conhecemos.
O espaço apresentava a estrutura praticamente intacta e os elementos que compõem os sistemas, apesar de degradados, estavam em estado passível de recuperação. O coberto arbustivo era reduzido e o coberto arbóreo encontrava-se envelhecido.
A intervenção foi programada a partir de estudos efectuados sobre os sistemas de composição da Quinta, que sustentaram uma proposta que assegurasse a sua existência cultural, social e funcional através da recuperação, valorização e gestão do património que a constitui.
Por comparação à Quinta das Conchas, espaço de maiores dimensões e com espaços passíveis de suportar actividades várias de recreio, foi requerido que este espaço, de carácter mais intimista, apresentasse uma oferta diferente, com actividades didácticas e de lazer associadas aos elementos e sistemas da quinta onde se pudessem promover actividades didácticas ligadas aos aspectos sensoriais dos ciclos de vida e do correr das estações.
Foi programada uma intervenção que promovesse baixos custos de manutenção das áreas plantadas, através da criação de prados de sequeiro e associações vegetais que promovessem a auto-regeneração das espécies.
Foi objectivo desta intervenção a requalificação de um espaço patrimonial de lazer e aprendizagem através de:
Redefinição do sistema de percursos, da circulação hidráulica e da vegetação (zonas de mata, orlas e clareira);
Intensificação das funções ecológicas e sociais;
Promoção de actividades didácticas ligadas aos aspectos sensoriais dos ciclos de vida e do correr das estações;
Perpetuação da sua essência cultural e social através da recuperação, valorização e gestão do património vegetal e cultural;
Recuperação do sistema hidráulico, reformulação da rede ortogonal de caminhos introdução de uma nova rede de percursos;
Instalação de um coberto vegetal que promova a biodiversidade e favoreça a regeneração natural e o baixo consumo, bem como o suporte das funções sociais e de lazer de um espaço desta natureza;
O espaço actualmente intervencionado na Quinta dos Lilazes abrange uma área de cerca de 4.5 ha., dos cerca de 5 ha. que a compõem (o espaço junto ao edifício original não foi intervencionado). A área junto à Alameda das Linhas de Torres não foi executada de acordo com o projecto original. A obra teve início na segunda metade de 2005 e foi concluída em Janeiro de 2007. Teve um custo de cerca de 1.600.000,00 €.
O sistema hidráulico recuperado é constituído por dois sistemas principais: um sistema de circulação da água em caleiras, que se desenvolve ao longo do caminho principal funcionando em circuito fechado e um sistema de drenagem constituído pelas valas drenantes preexistentes recuperadas. Promoveu-se uma recuperação dos sistemas tendo em conta a gestão do recurso água, trabalhado em circuitos que evitem os gastos excessivos e as perdas como forma de reciclagem e minimização do gasto deste recurso precioso.
O lago é o espaço onde se concentra o grande potencial de recreio activo, onde serão possíveis actividades lúdicas como a largada de barcos telecomandados pelos canais ou a activação de uma bica movida manualmente através de uma manivela. Todo o sistema do lago e canais foram recuperados.
Os quatro pavilhões que o ladeiam são o suporte de actividades didáctica que se pretendem promover com crianças das escolas. Toda a sua estrutura foi recuperada. Dois dos pavilhões têm mesas e bancos para merendas ou aulas ao ar livre, outro tem uma mesa para ping-pong e o outro tem um sanitário.
O lago, denominado “Lago dos 4 continentes”, tem no seu interior duas ilhas com a forma de S. Tomé e Príncipe. O antigo proprietário, notável colonialista e empresário em S. Tomé, transpôs algumas realidades coloniais para a Quinta.
O mobiliário incorporado prende-se essencialmente com bancos e papeleiras, distribuídos um pouco por todo o terreno, para além de dois bebedouros, estacionamento para bicicletas e uma latada nova junto ao edifício restaurante da Quinta das Conchas.
Vegetação – Trabalhou-se a forma (clareira, orla, mata) e o conteúdo (espécies autóctones e adaptadas) da vegetação de modo a recriar uma mata onde predominam os carvalhos cerquinhos, as azinheiras e as olaias, acompanhados pelos sanguinhos das sebes, murtas e medronheiros, aparecendo nas clareiras os freixos com sabugueiros e crataegus. Junto às linhas de água, freixos, alguns ulmeiros e sebes de loureiros. Junto ao tanque, uma latada com videiras, associando estes elementos de frescura num espaço de estadia.
O espaço não tem um sistema de rega automática. Tem um sistema de bocas de rega para que se possa garantir, em verões muito quentes e secos, algum teor de humidade no solo que revigore o coberto, funcionando para regas esporádicas.
Os revestimentos são os prados de sequeiro, revestimento natural de um espaço com esta tipologia e de baixo consumo de água.
A intenção é a de promover o estabelecimento de um ecossistema equilibrado que favoreça a regeneração natural. Para isso:
Às cerca de 40 espécies de árvores existentes, acrescentaram-se 12 espécies.
Às cerca de 10 espécies de arbustos existentes, acrescentaram-se 20.
Áreas de prado – Acima de 3.5 ha, associados em 3 misturas com variações de cor, altura, época de floração, em regime de sequeiro.
Arquitecto João Rocha e Castro
Chefe de Divisão, Divisão de Estudos e Projectos, Direcção Municipal de Ambiente Urbano
Câmara Municipal de Lisboa
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