Veículos eléctricos

João Vieira

Veículos Eléctricos: oportunidade ou ameaça para as cidades?

Quem tenha visitado uma feira automóvel nos últimos meses decerto que sai do certame com uma sensação: os carros do futuro serão eléctricos! O mesmo sucederá a quem circula pelos “corredores do poder” em Bruxelas ou em qualquer outra capital Europeia, já que os decisores políticos estão confiantes que esta tecnologia pode ser a chave para travar o crescimento das emissões poluentes no sector dos transportes.

Portugal não é uma excepção a este movimento, antes pelo contrário. Desde que vários fabricantes automóveis começaram a anunciar planos de produção em larga escala de veículos, o Governo Português anunciou um programa que visa colocar Portugal no pelotão da frente da promoção da utilização de veículos eléctricos. Sendo prematuro avaliar este programa nesta fase, é visível o empenho do Governo que anunciou e os compromissos que assumiu. Os actos mais visíveis são a construção de uma rede de carregamento de veículos eléctricos de âmbito verdadeiramente nacional (a primeira na Europa) e o defendido no Orçamento de Estado para 2010, através de um ambicioso pacote de incentivos para a aquisição deste tipo de veículos.

Procurando perceber as implicações deste movimento, importa sublinhar que a generalidade dos especialistas concorda que, numa primeira fase, esta tecnologia será utilizada sobretudo ao nível urbano. Esta percepção prende-se sobretudo com três factores:

  • nesta sua fase inicial os veículos eléctricos terão uma autonomia mais baixa que os veículos com motores convencionais, pelo que estão mais adequados a deslocações curtas, como as que ocorrem nas áreas urbanas;

  • os motores de combustão interna dos nossos actuais automóveis são particularmente ineficientes em condições de circulação urbana, com viagens curtas e sujeitas a paragens frequentes, e tantas vezes com níveis elevados de congestionamento;

  • duas das potenciais vantagens ambientais do veículo eléctrico – a redução da poluição do ar e do ruído – apontam para problemas ambientais de carácter urbano.

Assim sendo, importa reflectir acerca do impacto que a introdução de veículos eléctricos em larga escala poderá ter nas cidades e, talvez ainda mais oportuno nesta fase, perceber como o planeamento actualmente em curso pode ser orientado para maximizar os benefícios e minimizar as ameaças que surgem com esta nova tecnologia.

Oportunidades para uma cidade mais limpa

Os veículos eléctricos apresentam várias vantagens do ponto de vista ambiental. Em primeiro lugar porque os motores eléctricos são uma tecnologia mais eficiente que os motores a gasóleo ou a gasolina, ou seja, para andar uma certa distância num veículo eléctrico consome-se menos energia que para andar a mesma distância num veículo com um motor comum. Este facto desde logo confere a possibilidade de reduzir fortemente o consumo de energia no sector dos transportes.

Outra vantagem importante dos veículos eléctricos é que a energia que usam pode ser produzida de várias formas. Ao contrário dos veículos com os combustíveis tradicionais, que estão quase só dependentes do petróleo, a electricidade pode ser produzida de várias fontes, algumas delas com grande impacto ambiental (ex. centrais a carvão), mas outras quase totalmente limpas (ex. turbinas eólicas).

A terceira vantagem dos veículos eléctricos, talvez a mais importante para as cidades no curto prazo, resulta do facto de promoverem uma separação efectiva entre o local de produção da energia que usamos para mover o veículo e o local onde efectivamente usamos o veículo. Apesar de parecer uma questão académica é muito relevante já que transferir a emissão de poluentes do centro das nossas cidades para os locais onde estão instaladas as centrais de produção de energia permite reduzir fortemente a poluição do ar nos centros urbanos. 

Para lá das oportunidades: algumas ameaças dos veículos eléctricos

Apesar das enormes vantagens que os veículos eléctricos apresentam estes podem colocar sérias ameaças à sustentabilidade da mobilidade urbana, ao ambiente e, eventualmente, às finanças públicas.

Uma das grandes vantagens dos veículos eléctricos reside no facto de “cortar” drasticamente a factura energética que pagamos para usar o transporte individual – o custo por quilómetro pode ser reduzido para valores pouco superiores a 20% do que pagamos actualmente. Se, por um lado, esta pode ser vista como uma grande vantagem, também é verdade que pode ter consequências indesejáveis. A primeira dessas consequências reside no facto de incentivar um maior uso do carro nas deslocações urbanas. Esta maior utilização do transporte individual, mesmo que cada um dos carros seja mais limpo que os que utilizamos actualmente, pode levar  ao agravamento de problemas como o congestionamento, a escassez de estacionamento e o estacionamento anárquico, a segurança rodoviária e alguns problemas ambientais. O balanço dependerá de vários factores, mas pode mesmo acontecer que este corte nos preços do transporte individual leve a um aumento da actividade de transportes superior à redução de emissões por unidade de transporte, e nesse caso o resultado global seria mais poluição do ar e maiores emissões de gases com efeito de estufa.

Associado a este problema surge a questão dos impostos cobrados pelo consumo de combustíveis. Actualmente os Estados têm nestes impostos importantes fontes de receita, da qual não podem (e eventualmente não devem) prescindir, pelo que urge repensar a forma como o sistema de transportes é taxado.   

Planeamento local: capitalizando as oportunidades e minimizando as ameaças

Perante este quadro, os decisores políticos devem definir estratégias que permitam assegurar que a introdução de veículos eléctricos seja uma solução para os problemas das nossas cidades. Em Portugal, o envolvimento dos municípios no programa para a mobilidade eléctrica está a ser acautelado pela administração central, que celebrou recentemente acordos com 25 municípios a preparação de “Planos de Mobilidade Eléctrica”.

É ainda incerta a abordagem a empreender nestes planos.

Um plano deste tipo pode centralizar-se na mobilidade eléctrica em si, procurando responder a questões como a localização dos postos de abastecimento e quais as melhores medidas de promoção e divulgação dos veículos eléctricos. No entanto, apesar deste tipo de planeamento ser necessário, parece vital que seja desenvolvido em paralelo um exercício mais ambicioso em que o veículo eléctrico não seja visto com um fim mas como um meio. Neste planeamento as autarquias devem olhar para as vantagens e desvantagens dos veículos eléctricos, comparar com os vários modos de transporte existentes na cidade e com os padrões de deslocação das populações, e detectar formas de aproveitar as vantagens e minimizar as desvantagens. Se este exercício não for feito corremos o risco de tornar os veículos eléctricos um sucesso, mas de tornar as cidades locais com pior qualidade do ambiente e menor qualidade de vida. Seria uma oportunidade perdida.

Por isso, é precisamente neste ponto que a acção dos municípios se deve centrar, e desde já, antes do desenvolvimento dos projectos de massificação dos veículos eléctricos. Tentando resumir numa frase um assunto de grande complexidade, parece claro que ninguém beneficia se as pessoas que hoje viajam a pé, de metro, comboio ou autocarro passarem a andar de carro eléctrico, mas deve reconhecer-se a enorme vantagem que seria se reduzíssemos para zero as emissões de poluentes dos veículos que hoje enchem as ruas das nossas cidades. Se a massificação é a grande oportunidade que move fabricantes, a integração do veículo eléctrico numa mobilidade que se pretende sustentável, é o grande desafio em que os municípios devem centrar a sua atenção.

Engº João Vieira, TiS.pt, Consultores em Transportes, Inovação e Sistemas, S.A.

 

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