Nº 3| Período: Junho-2010 |
Editor: Alexandra Campos | Director: Rogério Gomes |
Preâmbulo
Com a crescente procura de edifícios antigos no mercado, contrariamente ao que ocorre com a construção nova, interessa entender de que forma se pode intervencionar de modo a garantir as pretensões dos empreendedores, sem prejudicar as imposições regulamentares actuais.
Neste sentido, refere-se, como exemplo, a intervenção realizada num edifício habitacional pombalino situado na Rua Victor Cordon, nº11, em Lisboa.
Para além da imposição estabelecida pelo promotor, em que a exiguidade dos espaços públicos exteriores para estacionamento suportou a opção da introdução de uma cave e a introdução de um novo piso de habitação, foram propostos um conjunto de intervenções de reabilitação geral e estrutural baseadas em metodologias simples e maioritariamente com a utilização de materiais e soluções tradicionais.
De salientar a manutenção da estrutura interior e exterior do edifício existente, com as devidas adaptações necessárias ao cumprimento do Projecto de Arquitectura.
Introdução
Situado numa das zonas históricas mais importantes da cidade e na proximidade do Chiado, este edifício foi construído nos finais do século XVIII e apresenta soluções estruturais típicas da época, baseadas em paredes exteriores espessas de alvenaria e paredes interiores estruturais do tipo frontal, resultantes de imposições legais após o sismo de 1755. Todo o edificado envolvente, onde também se integra o presente edifício, se caracteriza por metodologias construtivas similares.
A sua utilização como edifício habitacional e a não manutenção do mesmo, resultaram num conjunto de anomalias que conduziram à degradação de paredes, coberturas e pavimentos.
As intervenções no edifício resultaram de um conjunto de requisitos impostos pelo actual proprietário, que conduziram à necessidade de reforçar diversos elementos estruturais. Por imposição das entidades públicas, foi necessário manter toda a estrutura interior e exterior, aumentando a complexidade da intervenção.
O Edifício Anteriormente à Intervenção
O edifício apresentava uma estrutura típica das construções pombalinas, compondo-se de um piso térreo (Rés-Chão), três pisos elevados, sótão e cobertura. A área de implantação era, aproximadamente, de 200 m².
A estrutura existente baseava-se num conjunto de paredes exteriores em alvenaria, com espessura variável de 0.60 m a 0.80m, constituída por pedra irregular envolta em argamassa de cal e areia. As paredes de frontal interiores, que foram mantidas, apoiavam-se num conjunto de arcos existentes ao nível do Rés-Chão, que transferiam as cargas verticais em profundidade. Os pavimentos eram constituídos por vigamentos de madeira que suportavam o respectivo soalho.
Em face das condições de abandono do edifício são de registar as seguintes anomalias nos elementos estruturais:
ataque do caruncho da madeira nos vigamentos e soalho dos pavimentos e elementos de madeira dos frontais;
ataque por fungos que originaram a podridão dos vigamentos dos pavimentos e elementos de madeira dos frontais;
deformação excessiva e incapacidade resistente dos pavimentos para as sobrecargas regulamentares;
deficiente entrega e ligação dos vigamentos nas paredes de fachada e de empena.
No que respeita às fundações do edifício é de referir que aquelas assentam em camadas geológicas características daquela zona da cidade, constituídas por formações denominadas de Areolas da Estefânia, com importantes intercalações Calco-Areniticas com espessura variável. Não foi detectada água freática.
Figuras 1, 2 e 3: Fachada do Edifício. Arcos do Rés-Chão. Pavimentos degradados.
Intervenção Estrutural de Reabilitação, Ampliação e de Reforço
As premissas principais impostas pelo Dono de Obra, reflectidas através do Projecto de Arquitectura desenvolvido pela RISCO, assentavam nos seguintes pressupostos:
Reformulação dos espaços para garantir as características e tipologias habitacionais desejáveis.
Existência de estacionamento afecto a cada fracção habitacional, havendo necessidade de introduzir uma cave no edifício, ocupando parcialmente o logradouro.
Ampliação, em altura, do edifício com a introdução de um piso habitacional.
Reabilitação geral e reforço de elementos estruturais e não estruturais do edifício.
Cave para Estacionamento e Recalçamento do Edifício
A cave apresenta, em geral, um pé-direito de 4.0 m, tendo, na zona mais profunda localizada no logradouro, uma altura total de 6.0 m. O acesso à cave e o respectivo parqueamento é realizado através de um sistema semi-automático composto por um montauto, em que a viatura, após sair daquele, entra numa placa giratória que lhe facilita a manobra, sendo posteriormente estacionada pelo condutor num sistema de prateleira. Este sistema permite 8 lugares de estacionamento.

Figura 4:Corte Transversal do Edifício
Na construção da cave e da laje térrea o faseamento do trabalhos foi o seguinte:
1º - Execução alternada de poços com cerca de 1.5 x 1.5 m² e profundidade de 5.0 m junto das empenas, das fachadas, dos pilares e da caixa do elevador.
2º - Construção dos muros de suporte para recalçamento das empenas e fachadas, dos pilares e da caixa do elevador.
3º - Após execução dos principais elementos estruturais de suporte procedeu-se ao recalçamento geral do edifício com estrutura metálica.
4º - Finalizado o referido recalçamento prosseguiu-se com a escavação, adoptando equipamentos e máquinas que permitiram uma maior rentabilização dos trabalhos.
5º - Execução da laje do piso do rés-do-chão com 13 cm de espessura, recorrendo a uma solução mista com lajes do tipo colaborante.
Os poços foram realizados por operários especializados (poceiros), utilizando meios de fraca potência, decorrendo durante um período de tempo alargado devido à sua complexidade, ao tipo de terreno atravessado e à profundidade dos poços. Durante a execução da cave não se registaram quaisquer perturbações para o edifício, nem para as construções vizinhas.

Figuras 5, 6 e 7: Poços, Execução do Muro de Suporte e Recalçamento de Arcos.
A zona da cave localizada no logradouro, com profundidade de 6.0 m, foi realizada com recurso a paredes executadas pela técnica berlinesa com micro-estacas, pregada ao terreno com varões 25 mm que atingiram profundidades da ordem dos 5.5 m nos níveis inferiores e de 7.5 m nos níveis superiores.
Ampliação do Edifício em Altura
A introdução de um novo piso habitacional conduziu à ampliação, em altura, do edifício. Para o efeito foi necessário desmontar a cobertura original e proceder-se à desmontagem, elevação em cerca de 60 cm e reposicionamento final de uma clarabóia que o ex-IPPAR exigiu preservar. A nova estrutura que constitui as paredes e pavimentos assentou em soluções simples e de materiais leves, controlando os efeitos da acção sísmica. Promoveu-se assim a utilização de materiais como a madeira e o aço, apropriados para este tipo de intervenções.
Todas as paredes novas interiores são do tipo frontal, executadas com elementos de madeira e preenchimento com alvenaria. As paredes exteriores foram realizadas com recurso a perfis metálicos, entre os quais se adoptaram panos de alvenaria de tijolo convencional. O novo pavimento é constituído por perfis metálicos, que suportam elementos de madeira e o respectivo soalho.
A estrutura da cobertura é essencialmente constituída por perfis metálicos. Realça-se a introdução da viga treliçada com 12m de vão para a cumeeira, que suporta os vigamentos principais formados por HEA200. As madres são constituídos por elementos de madeira.

Figuras 8 e 9: Treliça da Cumeeira. Novas Paredes de Frontal e Pavimentos.
Intervenções Complementares de Reabilitação e de Reforço
Devido ao aumento das cargas sísmicas resultante da ampliação do edifício e da adequação da sua resistência global à actual regulamentação, foi implementado um conjunto de medidas de reforço. Para este efeito é de destacar a:
introdução de uma lâmina de reboco armado com 6 cm de espessura;
pregagem dos cunhais do edifício com tirantes longos, solidarizando a ligação entre paredes ortogonais.
Todos os elementos de madeira danificados ou apodrecidos das paredes de frontal e dos pavimentos foram substituídos por novos elementos de madeira tratados em autoclave com sais metálicos tipo CCB. No caso dos elementos de madeira existentes, e que não foram removidos, procedeu-se ao seu tratamento com produto preservador, aplicado no local por pincelagem.
Para compensar a eliminação de paredes de frontal originais no tardoz do edifício, introduziu-se ao nível dos pavimentos uma treliça metálica horizontal constituída por chapas corridas em “X”, que estabelecem a ligação entre a fachada de tardoz e as paredes de frontal que envolvem a caixa de escada.
Promoveu-se ainda o reforço da ligação entre as paredes e os vigamentos dos pavimentos, tendo em conta os efeitos da acção sísmica. Para o efeito adoptaram-se cantoneiras metálicas fixas nas paredes por chumbadouros selados com calda de cimento. Os vigamentos estão fixos à cantoneira por aparafusamento.

Figuras 10, 11 e 12: Reforço de Pavimentos e respectivas ligações. Paredes de Frontal. Malha do reboco armado.
Monitorização e Instrumentação
Dada a peculiaridade da intervenção promoveu-se a implementação de um Plano de Monitorização e Instrumentação do edifício intervencionado e dos edifícios contíguos. Assim, avaliaram-se as condições de segurança durante a execução da obra e recolheram-se elementos que permitiram avaliar as hipóteses adoptadas no projecto. Foram instaladas marcas topográficas com o objectivo de medir deslocamentos neste edifício e nos edifícios adjacentes. Procedeu-se também à montagem de inclinómetros para controlo do comportamento na parede berlinesa durantre todo o faseamento construtivo.
A frequência das leituras foi variável em função da evolução e exigência dos trabalhos desenvolvidos. No entanto, adoptou-se, em geral, uma periodicidade semanal, não se tendo registado quaisquer consequências para o edifício nem para as construções vizinhas com a intervenção estrutural realizada.
Conclusões
Como referido anteriormente, sabe-se que a reabilitação de edifícios antigos tem sido objecto de uma crescente procura por parte de promotores do sector e que deverá ser cada vez mais uma alternativa à construção nova. São conhecidas as vantagens resultantes da reabilitação deste tipo de edifícios quer para os promotores, quer para a sociedade em geral.
Com o exposto pretendeu-se evidenciar que é possível adequar estas construções às exigências cada vez maiores dos promotores e arquitectos.
Apesar da complexidade da execução dos trabalhos, nomeadamente com a execução da cave e a introdução de um piso elevado, concluiu-se ser possível adequar o edifício antigo às referidas exigências, sem prejuízo do cumprimento dos critérios regulamentares actualmente em vigor, dotando o edifício de resistência suficiente para as acções verticais e horizontais.
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Engº José Delgado
A2P Consult, Lda
jose.delgado@a2p.pt
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Engº João Appleton
A2P Consult, Lda
joao.appleton@a2p.pt
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Engº João Saraiva
A2P Consult, Lda
joao.saraiva@a2p.pt
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ANTES DA INTERVENÇÃO
EDIFÍCIO EXISTENTE
ARCOS ABOBADADOS EXISTENTES
PAVIMENTOS EXISTENTES
DEPOIS DA INTERVENÇÃO
AMPLIAÇÃO E COBERTURA METÁLICA

ESCAVAÇÃO - CONTENÇÃO LOGRADOUROS
POÇOS - ESCAVAÇÃO
REFORÇO PAVIMENTO MADEIRA
ENCASQUES
FRONTAIS
REFORÇO CUNHAIS
CRUZES STANDRE PAVIMENTOS

LÂMINA DE REBOCO
RECALCAMENTO DO EDIFÍCIO

REFORÇO LIGAÇOES PAVIMENTOS PAREDES