Praça da Portagem da A2 - Messines

Francisco Aires Mateus, Arquitectos, Lda

BRISA - Auto estradas de Portugal. A2 AUTO-ESTRADA DO SUL 
Sub-lanço de S. Bartolomeu de Messines/Via Longitudinol do Algarve 
Praça de Portagem de Plena Via

Projecto de execução . Memoria Descritiva

Arquitectura

Um tempo

O projecto trata de questões muito objectivas - um instante preciso no tempo, a entrada num território diferente, o pagamento final de um serviço prestado, a pausa obrigatória num movimento contínuo. Por tratar desse instante. trata também de todos os outros momentos do percurso e de um conjunto de sensações vividas numa sequência de vários cenários. Numa auto-estrada viajamos num todo, em que as relações mais remotas com a paisagem - cheiros, variações de temperatura e humidade. ruídos e ventos - nos são filtradas por circunstâncias inerentes à velocidade. A velocidade entendida enquanto dimensão vai revelando no entanto, sucessões de territórios.

A paragem na praça de portagem será, em relação a esse movimento. um acidente pontual em que, sem sairmos desse todo, finalmente abrandamos, mudando todo o conjunto de sensações características do percurso - vibrações, ruídos, velocidade de leitura da paisagem. O momento é, assim, único no percurso e marcado em si só; a ideia de o assinalar reforça a singularidade da sua percepção. não devendo, no entanto isolá-Io de um todo.

Um espaço

Por outro lado, o projecto sugere igualmente uma reflexão em torno do território. Se por um lado a implementação de uma auto-estrada se constitui como uma alteração num tecido contínuo, feito de outras lógicas de desenho e de tempos de intervenção distintos, também se afirma como um corte tão fino que deixa reconhecer facilmente as continuidades entre ambas as margens.

Mas mais que um corte, a auto-estrada constitui-se ela própria como um novo território, que indiferentemente se sobrepõe aos demais; um território dotado de regras próprias, sensações próprias, valores próprios revelando aqueles que vão sendo atravessados.

Uma praça de portagem, sendo inequivocamente mais um ponto desse território linear, apresenta-se ao mesmo tempo como uma oportunidade de demostração do equilíbrio entre natural e construído, ligando o artifício à natureza, marcando a capacidade de cada um dos mundos propor novas leituras. que se reforçam num todo.

A proposta

O projecto parece conter à partida todos os elementos para estruturar uma resposta coerente e contemporânea. Civilização e natureza, distância e proximidade, velocidade e segurança, movimento e quietude, são os binómios, de aparência paradoxal. Que constantemente balizam a intervenção. O maior desafio será o de encontrar sempre o justo equilíbrio entre as partes, resistindo à tentação de introduzir elementos dissonantes.

O projecto pretende ancorar a sua resposta em linhas de continuidade com o contexto próprio. A proposta pretende explorar a carga poética de elementos construtivos normalmente utilizados de forma estritamente pragmática, valorizando simultaneamente a sua relação com o meio natural espontâneo cíclico e perecível.

Descrição do projecto

O projecto procura, dentro dos parâmetros atrás expostos. construir uma imagem reconhecível, um referente concreto para a conceito subjacente da porta de chegada. Nesse sentido, o elemento marcante da proposta é claramente a estrutura de cobertura da praça.

A enorme pala, que se Iê à distância e que se percebe como uma unidade, revela-se a um olhar aproximado como um conjunto de delicadas coberturas, justapostas e sobrepostas. Estas estruturas desenham-se serenas, unidades distintas e semelhantes, num todo coerente. A sua geometria evoca de forma simplificada a estrutura de uma árvore; o conjunto das palas constitui metáfora abstracta de uma floresta, na aparente aleatoriedade da sua disposição e pela manifesta diversidade de proporções, Estas estruturas arrancam do chão, e constroem-se com naturalidade numa técnica comum ao restante traçado da auto-estrada: o betão armado. Propõe-se a utilização de um betão à base de cimento branco,de forma a conferir a um material já familiar uma nova e subtil variação de textura e cor, capaz de marcar a diferença sem provocar a ruptura. Pelo interior dos pilares, processa-se a drenagem das águas pluviais captadas nas coberturas. Embora sejam invisíveis do ponto de vista do utente da auto-estrada, a adopção destes materiais de revestimento justifica-se a uma macro-escala, repondo de alguma maneira os padrões do terreno e do cadastro local.

Pela relação dúplice que assim estabelecem, cruzando o elemento humano/rodoviário e o elemento natural da paisagem, as palas apresentam-se como uma espécie de síntese e ex-libris do projecto.

Sob estas palas e também ao seu redor, o projecto procura definir um contexto de grande tranquilidade, de quase neutralidade, que favoreça a leitura clara daqueles elementos. Ao nível da pavimentação, propõem-se para a praça de portagem os materiais habituais nas auto-estradas portuguesas: alcatrão nas faixas de rodagem, e blocos de betão pré-fabricados (lancis e lajetas) nas ilhas.

Propõe-se também o redesenho de alguns dos elementos de menor dimensão, com o objectivo de Ihes conferir maior contenção formal mantendo a facilidade de execução: é o caso dos maciços de protecção das ilhas, em betão, ou das cabinas dos portageiros, para as quais se propõe uma execuçao em vidro laminado (SGG-VISIONLlTE), e uma geometria mais depurada, apoiada nas características especiais do mesmo. No interior da cabina, três caixas em contraplacado marítimo lacado contêm todos os requisitos funcionais: a inferior com o posto de trabalho e todos os dispositivos associados, a superior com instalações eléctricas, de iluminação de cobertura e tratamento de ar da cabina, em complemento do estore de lâminas. 0 próprio edificio de controlo, cuja escala poderia ombrear com a das coberturas, surge perfeitamente dissimulado no talude de terreno adjacente.

Mais do que como uma construção, ele apresenta-se como um acidente topográfico, que alberga os requisitos programáticos. Para além da extensa frente em vidro, que parece querer acompanhar o movimento dos veículos, a sua presença é apenas denunciada por três escavos à superfície, que correspondem a um pátio exterior, um lanternim e uma escada de acesso. Embora a entrada no edificio se possa processar a partir da cota da praça, também o ingresso habitual se forma de forma discreta, a partir do parque de estacionamento de serviço. A cobertura será uniformemente ajardinada, preconizando-se a plantação em exclusividade de espécies autóctones.

Toda a eloquência da cobertura encontra a necessária correspondência no silêncio absoluto do entorno. Esta hierarquização muito clara das intenções do projecto é o ponto de partida que garante uma adequada gestão dos recursos disponíveis, contribuindo para uma proposta de grande equilíbrio e economia de esforços. Do conjunto de valores normalmente conotados com a auto-estrada, entre os quais a velocidade e a segurança, o projecto elege a ideia de eficácia. Se o desenho de uma auto-estrada corresponde a um máximo de eficácia, o projecto pretende pautar-se pelas mesmas regras, apresentando uma proposta de grande exequibilidade, num tempo necessariamente curto. Existe uma beleza arquitectónica nessa capacidade de, com um gesto único, resolver varios problemas.

Conclusão

Não restam dúvidas de que a construção de uma auto-estrada é um gesto de grande impacto inicial sobre uma paisagem virgem. Do mesmo modo. é garantido que o tempo e o complexo tecido do histório e da cultura farão dela apenas mais um marco, igual a todas aquelas de que no fundo, o territorio é feito - e sem as quais o nao é.

Esta proposta constitui sobretudo a oportunidade de reflectir sobre este fenómeno, de ensaiar uma lógica possível de ligação entre territórios agora separados por essa fenda; de propôr uma hipótese de compreensão para um território fragmentado em locais tão distantes e todavia ao alcance de um olhar.

Lisboa, 15 de Fevereiro de 2002 
Francisco Aires Mateus , Arquitecto

 

  

 

 

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