Projecto das Natura Towers (Sede da MSF)

GJP Arquitectos Associados (Gonçalo Rangel de Lima;Jorge Matos Alves;Pedro Neto Ferreira)


Edifício Sede da MSF, SGPS – Telheiras Norte III – Lote 6 – Lumiar – Lisboa

 Projecto de Arquitectura (Autorização) . Alvará de Loteamento nº 05/2004 .  Julho de 2007

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MEMÓRIA DESCRITIVA

INTRODUÇÃO

A presente memória descritiva refere-se à autorização administrativa do projecto de dois blocos (doravante designados de torres) de comércio e serviços, sendo uma deles (a torre Norte) para a implantação da futura sede da MSF SGPS. O Lote do terreno encontra-se integrado no Loteamento Telheiras Norte III, Lote 6, Freguesia do Lumiar (Alvará de Loteamento da CML 05/2004).

O lote apresenta uma forma de triângulo rectângulo e isósceles, com o ponto de cota mais alta no vértice de angulo recto e a cota mais baixa a meio da base. É limitado a Poente pela Rua A (que serve de acesso ao Lote) e pelos lotes 4 e 5, a Norte pela rua B e Eixo Norte-Sul, e a Nascente e Sul pela rua B e Avenida Padre Cruz.

Para além do desenvolvimento de um conjunto de qualidade, com solução e linguagem arquitetónica compatível com as empresas que irão ocupar os edifícios e uma adaptação adequada ao espaço envolvente, foram pressupostos do projecto a integração de preocupações ambientais e sistemas sustentáveis e bioclimáticos.

CARACTERIZAÇÃO GERAL

O loteamento apresentava dois volumes de 8 pisos, unidos por um embasamento que resolve a diferença de cota do terreno. A solução segue estes princípios básicos mas compatibilizados com o novo programa.

Assim, propomos diminuir a percepção da densidade de construção, através da solução construtiva das torres, da redefinição da sua volumetria (para termos proporções mais longilíneas e podermos efectivamente apelidar os edifícios de “torre”), e ainda da desconstrução do embasamento de forma a criar ambientes mais amplos e ricos. Os pisos em cave não são, portanto, aparentes e a percepção a partir da praça inferior e Av. Padre Cruz é que se tratam de quatro torres de 9 pisos, agrupadas duas a duas, tendo na base das torres sido o embasamento tratado com o mesmo carácter que o resto da fachada. Esta solução parece-nos adequada tanto mais que segundo levantamento feito no local (ver planta de levantamento . desenho 01), o terreno apresenta uma diferença de cotas substancial (5m no ponto médio entre a cota de soleira ao nível da rua de cima e de baixo).

Na proposta apresentada é notória também a preocupação da introdução na arquitectura de elementos mais ricos ao nível sensorial (contrastando a dureza de elementos como o vidro e a pedra com a sensibilidade da introdução de plantas e tecidos na construção). Cremos que a experiência de habitar o edifício pode, mais do que cumprir a função primária de abrigar o homem da natureza, representar o desejo de convidar a(s) natureza(s) a participar do espaço, aumentando o seu nível de conforto.

Por fim, e dentro de uma lógica de desenho universal, introduzimos questões de promoção de acessibilidade e remoção de barreiras arquitectónicas (de acordo com o Decreto Lei 163/2006 – ver planta de acessibilidades . desenho 03). Houve o cuidado de garantir acessos de nível tanto às fracções em contacto com a rua como à praça inferior, de introduzir instalações sanitárias para pessoas de mobilidade condicionada, e de prever corrimãos de ambos os lados e desenhando proporções adequadas entre espelho e cobertor dos degraus das escadas (interiores e exteriores), inevitáveis quando tratamos terrenos com declives tão acentuados. 

Solução Programática . implantação e enquadramento

A distribuição do programa pelos edifícios faz-se de uma forma muito clara, tanto pela simplicidade do próprio programa, como pela natureza do lote: estacionamento nas caves, estabelecimentos comerciais públicos nos pisos de contacto com as confinantes (em particular com a praça inferior) e escritórios nos pisos superiores, numa natural hierarquia de importância e privacidade.

Aproveitando a diferença de cota do embasamento, colocamos a entrada para as caves de estacionamento de nível com o arruamento inferior (Rua B), nos topos das torres e cantos do lote. O desfasamento entre os volumes de cada torre permite que esta entrada não se adivinhe a partir da praça inferior, o que, juntamente com o paramento de controle acústico que limita a praça a nascente, permite que se minimize a presença da circulação viária de um espaço que se quer de cariz de permanência pedonal. Embora esta divisão das caves e entradas do estacionamento não estivesse prevista no loteamento, foram garantidos os 91 lugares de estacionamento no exterior (os mesmos que estão nos desenhos de loteamento) e 279 lugares privativos em cave.

A nível do espaço público exterior, conseguimos ter três espaços perfeitamente diferenciados da envolvente “hostil”, com características próprias (um espaço mais informal na cota mais alta, que no entanto anuncia e dirige o transeunte para a entrada principal do edifício; uma praça-páteo a uma cota intermédia, abrigada dos elementos e rodeada de paramentos vegetais; e uma praça na cota mais baixa, onde a presença da massa construída é mais premente, e é ela que potencia as relações com o espaço vazio a ocupar)

As caves ocupam a totalidade do polígono de implantação do lote e estão divididas por torre, tendo acessos verticais (pedonais e viários) independentes. Temos dois pisos completos de cave e um piso em semicave, que liga com os estabelecimentos comerciais ao nivel da praça e pode desta forma conter os espaços de apoio e zonas de cargas e descargas independentes da circulação de público. As áreas técnicas estão projectadas de forma a que os elementos que devem ter ligações ao exterior (grelhas de insuflação/extração, portas de acesso técnico) tenham a sua presença minimizada pela integração no desenho urbano.

Distribuímos o comércio de maneira a conformar o contacto das torres ao nível da praça inferior e, na Torre Sul, também ao nível da rua A. É possível prever que possa haver atractivos acrescidos nesta diversidade de situações (tendencialmente, para fixação de estabelecimentos de restauração ao nível da praça, e lojas ao nivel da rua) e as infra-estruturas levam em linha de conta esta previsão.

Os pisos de escritórios da torre Sul são divididos em quatro fracções de escritórios independentes por piso (escritórios de tipologia A a D), enquanto a torre Norte, por se tratar do edifício-sede de uma empresa, se constitui numa única fracção (escritório de tipologia E). A torre sul apresenta algumas diferenças de funcionamento relativamente à torre norte; embora ambas tenham um núcleo central que divide as torres efecticamente em duas, com três elevadores e uma caixa de escadas, a torre sul tem um núcleo de instalações sanitarias comuns por piso (diferenciadas por sexos e com sanitários para deficientes motores), acessíveis pelo vestíbulo de piso.

SOLUÇÃO CONSTRUTIVA

Quando falamos de edifícios sustentáveis e de eficiência energética em construção, a primeira coisa a ter em conta será sempre a estrutura visível, a pele do edifício que está em contacto com o exterior. Pese embora um edifício em metal e vidro possa não parecer à primeira vista muito eficiente energeticamente, a utilização de tecnologias (sofisticadas mas já amplamente disponíveis) relativamente a vidros e técnicas de economia, com controlo de requisitos eléctricos, ventilação, retenção de calor e poupança de água, utilizados de forma inconspicuosa e engenhosa, tornam o edifício inesperadamente adequado. Se cruzarmos estes aspectos funcionais com a introdução de elementos vegetados de destaque, estamos também a contribuir para a experiência urbana a um nível mais vasto, e construir cidade de uma forma não só sustentável, mas interessante e responsável. Este tipo de experiências com a materialidade do edifício tem interesse pelo impacto visual e atractivo do revestimento táctil. A força da imagem (numa altura em que esta tem um valor indiscutível) representa também a personalidade do edifício e dos seus ocupantes.

O edifício implanta-se no território como um conjunto de paralelipípedos puros, ligados entre si por elementos de revestimento vegetal. Estes elementos são utilizados com o mesmo principio formal tanto nos núcleos dos edifícios como nos arranjos exteriores ao nível da ligação entre as duas praças, cosendo todo o conjunto. Os volumes assim revestidos permitem ao mesmo tempo a marcação de elementos proeminentes (circulações verticais dos edifícios, saídas de emergência das caves) e ocultação de uma série de instalações técnicas (núcleos de instalações sanitárias,  ventilação das caves, portas de acesso técnico).

O revestimento vegetal INTEMPER é composto por chapas de aço galvanizado perfuradas, preenchidas por placas de poliestireno extrudido e uma cama de substrato com feltro geotextil para uma plantação xerófita e autóctone, com uma tela impermeabilizante e caixa de ar no  contacto com o paramento, com um sistema de rega gota a gota integrado no painel. A plantação da flora adequada permite a variação do aspecto do edifício com a passagem das estações, com floração das diversas espécies a surgir em diferentes alturas do ano.

Esta aposta nos jardins verticais surge tanto pelas suas vantagens de impermeabilização e isolamento (térmico e acústico), como pelo seu valor plástico, como também pela importância para o nosso conforto (físico e  psicológico) em manter regular o contacto visual com elementos naturais. Assim, estas superfícies vegetadas são um aspecto positivo da concepção dos espaços de serviços, reforçam a nossa sensação de calma e de confiança ao restabelecer a relação com a Natureza, aumentando a produtividade.

A pele  exterior consiste numa dupla fachada, constituída por vãos de vidro duplo encaixilhado no interior, caixa de ar com ventilação controlada por registos mecânizados e uma fachada de cortina com estrutura em caixilho de alumínio e elementos fixos com sistema de Vidro Exterior Colado (V.E.C.). A imagem do edifício difere da tradicional torre de escritórios pela caracterização destes últimos, com diferentes materialidades e características. Embora o módulo se mantenha em termos de proporções (com uma malha de 4x1m de forma reforçar a verticalidade dos objectos), propomos três variações dentro deste tema, conforme as necessidades interiores e relações com o exterior.

. Panos de Vidro Temperado 10mm tipo SGG SECURIT transparente para manter as vistas e aumentar a entrada de luz;

. Panos de Vidro Temperado 10mm tipo SGG SECURIT opalino para controlar a privacidade e difundir a luz ambiente;

. Panos de Vidro Laminado 10mm com Painéis Fotovoltaicos integrados translúcidos tipo SGG Prosol (nas fachadas sul-nascente e sul poente): com capacidade de produção de energia, reduzindo os consumos do edifício.

As variações possíveis dentro deste sistema de fachada são ilimitadas e podem ser alteradas, caso viesse a ser necessário, conforme os requerimentos específicos das empresas e consequentemente dos espaços a ser instalados no edifício. Deve, no entanto e como em qualquer ecosistema, ser mantido sempre um equilíbrio do conjunto.

Ao nível do controle de luz e incidência solar, propomos a colocação dentro deste sistema de Estores de Rolo de mecanismo eléctrico e pontualmente a Plantação de Trepadeiras (Ionicera japonica e Clematis montana) em Vasos Moldados em Fibra de Vidro, com suporte de crescimento em Rede tipo Teia de arame zincado montada em Quadros de cantoneira metálica: para além das vantagens e conforto do contacto directo com os elementos vegetais dentro de um ambiente de escritórios, tem a dupla vantagem de servir como “pulmão” da fachada ventilada, regulando naturalmente a qualidade do ar e humidade; a sua manutenção pode ser mínima através do cuidado estudo da sua plantação (controle de crescimento por limitação da raíz) e da utilização de sistemas sustentáveis para o seu cuidado (sistemas de colecção e reutilização de águas pluviais para a sua rega).

Ao nível dos interiores, os elementos que se prevêem colocar deverão ser consonantes do conceito do edifício. A título de exemplo podemos referir a utilização de alcatifas modulares com base em pasta de milho, substituindo os betuminosos sem perder tempo de vida útil do material; Ou a aplicação de divisórias em vidro nos paramentos paralelos à fachada, de forma a introduzir a luz até ao coração de todos os espaços, tornando-a material, palpável e essencial à arquitectura.

No limite, temos um edifício que se comporta como uma planta: recolhe a água da chuva na cobertura e armazena-a para posterior utilização, utiliza a luz solar transformando-a em energia, e produz oxigénio através de grandes superfícies verdes.

CONCLUSÃO

A introdução no projecto de preocupações ambientais, com aplicação de sistemas sustentáveis e  características bioclimáticas, parece-nos uma opção muito acertada, tanto do ponto de vista ético como (e cada vez mais) do ponto de vista económico. As alterações climáticas, a conjuntura geopolítica global e a crise dos combustíveis fósseis levam a uma alteração nos hábitos e formas pensar a nossa relação com a energia que consumimos. Os governos já estão alerta para esta realidade e legislam em concordância; já existe e vai entrar em vigor a certificação energética dos edifícios e prevê-se que a certificação ambiental não se encontre num futuro muito distante. A previsão de benefícios a longo prazo é uma mais-valia que destaca as empresas com visão de futuro.

O projecto propõem que se vá ainda mais longe, com ligação entre uma tipologia de marcada contemporaneidade (a torre de escritórios), a uma forma mais tradicional de relacionamento entre o habitante e o ambiente que o rodeia.  A realidade no nosso país, em que as construções se comportam muito pior do que o clima, é pouco favorável à existência de condições óptimas de trabalho, com consequências mesuráveis a nível da qualidade do mesmo. Portanto, tanto relativamente à produtividade (para o utilizador regular) quanto em relação à ideia e memória do espaço (para o visitante ocasional), não há dúvidas que este tipo de estudos de conforto, começando na fase de projecto e implementados na obra, são já uma pré-condição essencial. Todas estas medidas, para além de questões técnicas de funcionamento, têem como objectivo a introdução de níveis elevados de conforto nos espaços.

A proposta procura o equilíbrio formal e funcional entre três aspectos: a utilização de materiais de cariz tecnológico e contemporâneo na construção do edificado (que caracteriza em grande medida o espaço), a flexibilização da solução relativamente ao funcionamento e uso por parte de quem o habita (em consequência e espelho da sociedade) e a minimização da pegada ecológica do projecto através da introdução de elementos naturais em todos os espaços (que são grandes marcadores da passagem do tempo).

O resultado é um conjunto que embora tenha densidade se torna leve, embora limitado se torna versátil e, embora enraizado no seu tempo, se torna intemporal. A utilização prudente e sensível dos diversos domínios e materiais foca a nossa atenção no facto que este é um edifício sustentável e, tal como quando a nossa vista é dirigida para um ponto onde de repente nos apercebemos do horizonte, nos abre todo um leque de potencialidades e caminhos verdadeiramente inspiradores.

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